terça-feira, 5 de junho de 2007

Os dias de Missirá - Manuel Lamas

“Quantas vezes te aconteceu que, em relação aos outros, tenhas estado frequentemente - ou, melhor dizendo, quase sempre - no lugar errado ou no momento errado?
Deixa ver se consigo desenvolver a ideia com suficiente nitidez.
Raras vezes aquilo que nos atrai nos outros - ou no outro, se preferires - chega mais fundo do que aquela superfície confortante das coisas de que se fala quotidianamente. Depois vais-te dando conta de que essas coisas se complicam. Factos, intuições, percepções e suspeitas que interagem, relacionam, destroem e reedificam. O outro espessa-se, alarga-se, ganha outras, e quase sempre insuspeitadas dimensões, bem longe da dicromia inicial.
Não me atreveria a afirmar que é um processo gradual. Descontínuo sim, como quase tudo, aliás.
Se no começo tentaste seduzir - e repara que falo no sentido mais lato - capturar o outro na órbita daquilo que julgaste ser o seu principio de gravitação pessoal, com um perfil, uma palavra deixada cair ou algo de semellhante, mais tarde ou mais cedo és obrigado a constatar que um e outro têm massas distintas, velocidades diferentes. Um peso passado que em puro cálculo de probabilidades vos atira - quando muito - para trajectórias que apenas cíclica ou episodicamente se tornam secantes. Percebes o que quero dizer?
O resultado final é uma mistura de arritmia, assincronismo, topologia irónica e insuspeitada. A partir de um certo grau de convivência os desencontros são mais numerosos e mais pesados do que os encontros. Ou, pondo as coisas de outra maneira, tens uma consciência mais aguda dos momentos de divergência do que dos momentos de convergência. E a própria tomada de consciência dessa realidade, mesmo quando se converte em tentativas de ajustamento, de correcção, acaba por só agravar as coisas. Porque, habituado à tua massa específica, à tua velocidade, à inércia adquirida num tempo pretérito, dificilmente admitirás que os conceitos de certo e de errado, de bem e de mal, pouco ou nada têm a ver com as assincronias entre ti e o outro.”
Recomendo...

12 comentários:

Anónimo disse...

Atão foi você que leu o meu livro?
A sua citação contrapesa-me os 200 exemplares de sobras que a D. Quixote me recambiou.
Um leitor em Moçambique?
a pedrinha saltitou até onde mora o mais subversivo ferramenteiro que carpinteira o portugês?
Vá lá, um abraço
Manuel Lamas

Anónimo disse...

Foi tanto o Dr. Manuel Lamas que escreveu o último comentário como eu.
De uma pessoa que o admira imenso,

Paulo

Anónimo disse...

Tenho procurado mais livros escritos por este autor, mas julgo ser o único. Com pena minha, porque escrever sobre o tema do livro, nem todods têm a sensibilidade e o conhecimento de Manuel Lamas. É realmente um bom livro que tenho recomendado.
Sobretudo porque agora é moda aparecerem livros com capas "folclóricas", mas o conteúdo é fraquissimo.
Mama Sumae

Anónimo disse...

Mama Sumae

Se não me engano esse Manuel Lamas é apenas um heterónimo do coronel Manuel Lamas de Mendonça, Deficiente das Dorças Armadas por ferimentos recebidos em campanha e sócio da Associação de Comandos

Anónimo disse...

pelo que conheço do autor em apreço estou em crer que o
<< subversivo ferramenteiro que carpinteira o português>> referido a Moçambique aponta para Mia Couto

Fernando Ribeiro disse...

A primeira impressão que se tem de "Os Dias de Missirá", de Manuel Lamas, é a de demonstração de uma grande mestria da língua portuguesa. Dificilmente se encontrará um tão perfeito domínio do nosso idioma por parte de um estreante.

Outra impressão que o livro deixa é a de uma falta de unidade formal da obra. É certo que o livro aborda as vidas de uma sucessão de pessoas, de geração em geração, de pai para filho, deste para o seu próprio filho e assim sucessivamente, até chegar aos nossos dias. Mas a diversidade de estilos e os saltos bruscos e inesperados de cenários e de situações, na passagem de um capítulo para outro, não podem deixar de causar uma certa perplexidade no leitor.

Eu estou convencido de que estes saltos são intencionais. Não é defeito, é feitio. Além de querer dar uma versão romanceada do que certamente é a sua própria linhagem familiar e pessoal, o autor terá pretendido fazer um exercício de escrita. É este exercício que se constata claramente na obra. Na passagem de uns capítulos para os outros, o autor foi utilizando sucessivamente vários registos, desde o da narrativa histórica até ao urbano-depressivo, passando pelo burlesco e pelo épico. Se bem que o autor esteja muitíssimo bem nos restantes registos, é no épico que ele falha redondamente.

Com efeito, há registos que são muito traiçoeiros. Um deles é o sentimental (que o autor não utilizou), que facilmente descamba para a lamechice. Outro é o épico, que pode cair na inverosimilhança. Ora foi nesta mesma armadilha que o autor caiu. À força de querer enaltecer a bravura do seu herói, na qualidade de participante na guerra colonial, o autor acabou por nos dar um relato completamente inverosímil da própria guerra e dos seus intervenientes. Ora não basta que um relato esteja bem escrito, de um ponto de vista estritamente formal, para que ele seja minimamente convincente. Nenhum dos capítulos referentes à guerra, em "Os Dias de Missirá", tem qualquer consistência. Qualquer pessoa que tenha participado na guerra colonial -- fosse em Missirá (Guiné), em Zala (Angola), em Mueda (Moçambique) ou onde quer que fosse -- sabe que ela não foi, nem nunca poderia ter sido, assim.

Por um lado, o individualismo extremo, no estilo Rambo, com que o autor fez a sua personagem movimentar-se, nunca existiu, nem poderia existir, numa guerra. Isto de agir sozinho, por sua própria conta e risco, contra tudo e contra todos, sem prestar contas a ninguém e ainda por cima acabar por ser felicitado por isso, fica muito bem nos filmes do Sylvester Stallone, mas não corresponde minimamente à realidade. A guerra foi sempre uma actividade de equipa, desde os grande exércitos até aos grupos compostos por dois homens apenas, como nos Comandos. Além disso, quem quer que faça parte de uma força armada, seja ela qual for, tem sempre que prestar contas a alguém e tem sempre que agir de acordo com ordens recebidas. O herói solitário do autor é por isso uma impossibilidade.

Por outro lado, há que salientar que não é herói quem não tem medo e faz frente às balas de peito descoberto. Quem age assim, não é herói; é inconsciente. O verdadeiro herói é um ser humano que tem qualidades e defeitos como qualquer outra pessoa. O verdadeiro herói tem consciência das suas próprias limitações e dos seus próprios medos, mas consegue vencê-los, apelando à sua própria força de vontade e superando-se. O verdadeiro herói não é um cão de guerra impiedoso. O verdadeiro herói é um ser humano que não renega a sua própria humanidade e não nega a dos outros, nem sequer a dos seus próprios inimigos. A máquina de guerra humana imaginada pelo autor neste livro é, por isso, um anti-herói e não um herói.

Apesar dos aspectos negativos apontados, acho que se pode recomendar a leitura de "Os Dias de Missirá", de Manuel Lamas. Está muito bem escrito e a sua variedade de estilos e de situações evitam que ele se torne maçador. Lê-se com muito agrado.

Fernando Ribeiro

Fernando Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Procuro o livro "Os dia de Missirá" já tentei diversas livrarias, inclusive enviei um mail às publicações D.Quixote e sem sucesso. Agradeço quem me possa dar alguma informação.

Fernando Ribeiro disse...

Caro/a anónimo/a
A Amazon tem um exemplar usado à venda pela Internet:

http://www.amazon.com/s/ref=nb_sb_noss?url=search-alias%3Dstripbooks&field-keywords=os+dias+de+missir%E1&x=18&y=20

Fernando Ribeiro

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«Oh meu Deus, dá a cada um a sua própria morte,/ dá a cada um a morte nascida da própria vida/ onde se conhece o amor e a miséria.» -- Rainer Maria Rilke

Anónimo disse...

Obrigado pelo link da amazon. Um bocadinho caro quase 77USD+ portes . Vou continuar a procurar mas agradeço a informação.

Anónimo disse...

tAMBÉM QUERIA E NÃO CONSEGUI

jorgemadureira disse...

Fui um elemento do Batalhão 3880/C.Caç 3535, Companhia esta comandada no início da Comissão em Angola, pelo então Capitão Manuel Lamas. Após poucos meses o nosso Comandante abalou de regresso á então Metrópole e no meu pensamento ficou sempre a ideia de uma retirada "estratégica", e que ainda hoje tenho dúvidas das causas reais, visto que a imagem que tinha e tenho do Capitã Lamas era de um Operacional bem sustentado no que seriam as atividades da nossa Companhia 3535. O seu sucessor ainda em Zemba, tinha um perfil totalmente diferente, mas o resto da nossa Comissão correu sem incidentes de maior... agora ao saber desta faceta de Escritor, fico curioso para ler o livro em apreço. Talvez um dia possa emitir uma opinião! DE qualquer modo folgo em ver o Capitão Lamas nesta área da escrita e desejo-lhe continuados êxitos!
Jorge Madureira - Ex-Furriel Miliciano Mecânico da Companhia 3535/B.Caç 3880.